PÍLULA DA MEMÓRIA. Porque é que os britânicos e os americanos odeiam os russos?



PÍLULA DA MEMÓRIA

Porque é que os britânicos e os americanos odeiam os russos?

Eis a tradução do discurso de Jeffrey Sachs no Parlamento Europeu:

«Porque é que os britânicos começaram a odiar os russos? Porquê? Vou explicar-vos. Ontem mesmo publiquei um livro sobre a russofobia europeia.

No primeiro capítulo desse livro, falo de um estudo notável, escrito em 1950 por um historiador chamado Gleason.

Ele colocou uma questão muito pertinente, que continua a ser totalmente aplicável aos dias de hoje.

Disse que, em 1815, depois da Batalha de Waterloo, a Grã-Bretanha e a Rússia eram aliadas. Vinte e cinco anos depois, tornaram-se inimigas. O que aconteceu? Para descobrir, analisou os registos dos debates parlamentares. Estudou todos os documentos públicos. Leu tudo. Leu cada palavra proferida na Câmara dos Comuns. Leu todos os discursos. E, nesse livro extraordinário, chegou à conclusão de que o maior pecado da Rússia é ter 17 milhões de quilómetros quadrados. Esse é o seu maior pecado.

Porquê Porque, perante uma Rússia com 17 milhões de quilómetros quadrados, a Grã-Bretanha decidiu que o país era tão vasto que representava uma ameaça ao domínio britânico na Índia. Aliás, essa ideia nunca tinha passado pela cabeça do czar. Mas a própria Grã-Bretanha acabou por alimentar suficientemente esse receio. Em 1840, a Rússia já era considerada uma inimiga.

Em 1853, Palmerston, um imperialista típico, desencadeou a Guerra da Crimeia. Porquê? É uma longa história, mas, essencialmente, para esmagar a Rússia. Em 1852, a Rússia tinha afirmado que todas as divergências podiam ser resolvidas e que não havia motivo para um conflito. Mas Palmerston respondeu: vamos avançar sobre Sebastopol. A razão era que queria transformar a Rússia numa potência insignificante, incapaz de ameaçar o Império Britânico. E assim começou uma guerra sangrenta que durou três anos: a Guerra da Crimeia.

É esta a nossa abordagem revolucionária à paz. Sabem que, apenas alguns dias depois da capitulação da Alemanha, em 1945, Churchill perguntou ao seu Estado-Maior: porque não invadimos agora a União Soviética? A operação recebeu o nome de «Operação Impensável». (Os estudos demonstraram que não era viável e a ideia acabou por ser abandonada.)

E quando, em 1945, os Estados Unidos assumiram o lugar do Império Britânico, a Rússia tornou-se inimiga dos Estados Unidos da América.

Quando a União Soviética se desmoronou, poderíamos ter garantido a paz mundial durante um século inteiro, se assim o quiséssemos. Os russos já estavam cansados de 75 anos de bolchevismo. Queriam paz, cooperação e amizade. Mas os estrategas americanos só conseguiam pensar no facto de a Rússia ser um país demasiado grande e de ser necessário garantir que continuasse a ser uma potência de terceira categoria.

Foi por isso que decidiram cercar a Rússia com a NATO. Quando se age assim durante tempo suficiente, o resultado acaba por ser uma guerra na Ucrânia.Esta não é a guerra de Putin: é a nossa guerra. As razões são exatamente as mesmas que levaram Palmerston e Napoleão III a desencadear a primeira Guerra da Crimeia. Porque a Rússia não tem o menor interesse em avançar sobre a Europa. Nunca teve, exceto quando foi ameaçada por Napoleão e quando foi ameaçada por Hitler.»

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