Na retaguarda da corrida pelas terras raras, os EUA veem a China já dominar 70% da mineração mundial desses minerais, além de quase 90% do processamento e do refino. Além disso, o país asiático detém um terço das reservas mundiais, com 44 milhões de toneladas, enquanto o Brasil ocupa a segunda posição, com 21 milhões.
Em meio à corrida global pelos minerais essenciais para as novas tecnologias, o governo do presidente Donald Trump iniciou investidas contra três regiões globais ricas em terras raras: Brasil, Canadá e Groenlândia. A ilha do Ártico, que detém a oitava maior reserva mundial desses minerais, tem sido alvo de investidas do republicano desde o ano passado, inclusive com ameaças de ataques e de tomada do território à força. Mas, no último mês, Trump conseguiu um acordo militar com o governo groenlandês e chegou a afirmar que, “em breve”, iniciaria a exploração em larga escala de petróleo, gás e minerais, declaração duramente contestada pelas autoridades locais e pela Dinamarca.
Já o Canadá, que também abriga milhões de toneladas de minerais cruciais para as tecnologias de ponta e chegou a ser um dos principais alvos do tarifaço de Trump, discute um eventual acordo com os Estados Unidos, mas ainda cercado de questionamentos sobre sua concretização. Enquanto isso, o país tem recebido fortes investimentos do Japão, que, em setembro, anunciou um aporte de US$ 4,5 milhões (R$ 24,6 milhões).
© Sputnik Brasil
Por fim, restava o Brasil, cuja aposta de Trump era na vitória do então candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), defensor da soberania mineral do país e do uso desses recursos para o desenvolvimento industrial nacional.
O próprio plano de governo de Flávio defendia uma parceria com Washington em setores estratégicos, incluindo o de terras raras, sem especificar se evitaria ou não manter o país apenas como exportador de matéria-prima. Contudo, o petista conseguiu se reeleger com uma diferença de 4,4 milhões de votos.
O pesquisador de pós-doutorado e coordenador do Núcleo de Estudos Atores e Agendas de Política Externa (NEAAPE) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Ghaio Nicodemos Barbosa, defende, em entrevista à Sputnik Brasil, que a vitória do petista trouxe um sinal de que o governo brasileiro vai exigir “determinadas salvaguardas e limites à relação comercial desses minerais”.
Mesmo assim, o especialista lembra que, enquanto o país não conseguir implementar uma grande cadeia de transformação para produzir componentes baseados em minerais críticos dentro do próprio território, ainda será necessário exportar esses materiais, cujos principais compradores interessados são os próprios Estados Unidos e a União Europeia.
“Óbvio que a China, por conta de uma tendência enorme de industrialização conduzida nas últimas três décadas e que hoje domina a tecnologia de ponta, extremamente dependente dos minerais críticos, vai disputar um espaço como consumidora, mas, ao mesmo tempo, disputa um espaço como fornecedora. Temos uma sinfonia em que cada instrumentista está tocando sua própria música e, nisso, o Brasil tem esse quase paradoxo.”
Diante desse cenário, Barbosa avalia que a estratégia do governo Lula neste quarto mandato deve seguir uma lógica semelhante à adotada por Getúlio Vargas no século passado, que alternou momentos de aproximação com os Estados Unidos e com a Alemanha, conforme os interesses brasileiros.
“O grande objetivo do governo Lula é que não se exporte mineral bruto ou mineral com baixo refino, mas que se consiga captar valor dessa produção. Então, acho que há um espaço ainda muito grande para olhar principalmente para empresas estadunidenses como parceiras próximas da região […], além das negociações já travadas com a China, que deu alguns sinais bastante positivos em relação a isso em outros países”, acrescenta.
© Sputnik Brasil
BRICS e outras alianças internacionais podem fortalecer o Brasil diante dos EUA?
Pelo menos na retórica, o Brasil assumiu nos últimos anos o discurso sobre a importância das terras raras e de outros minerais críticos para o desenvolvimento científico e tecnológico do país, além de seu papel como ativo da política externa brasileira. É o que resume o pesquisador da UERJ, que destaca que essa estratégia também tem ganhado força em diversos países, cada um com sua agenda individual, mas com pontos de convergência, a exemplo do que ocorre entre os membros do BRICS.
“Talvez um dos maiores desafios do governo Lula, diante das investidas de Trump, que ainda tem dois anos de governo, seja tentar constituir, dentro dessa aliança com o BRICS e outros organismos internacionais, acordos que consigam fazer frente a toda essa articulação que os EUA vêm conduzindo contra o Brasil”, enfatiza.
Entre as recentes parcerias firmadas pelo governo brasileiro está o acordo de cooperação com a Índia, que prevê investimentos em setores estratégicos, incluindo o de terras raras. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, ao cumprimentar Lula pela reeleição no Brasil, sinalizou a continuidade da parceria, que prevê ainda dobrar o volume de comércio bilateral para pelo menos US$ 30 bilhões (R$ 164 bilhões) até 2030.
Porém, Ghaio Barbosa defende prudência na questão e cita o alinhamento da Índia com Washington: na mesma época do tratado com o Brasil, os chanceleres de Austrália, Japão, Estados Unidos e Índia, no âmbito do Diálogo Quadrilateral de Segurança (Quad), assinaram um acordo sobre segurança energética e minerais críticos.
“Ou seja, os Estados Unidos, que estão malvistos por conta do contexto do governo Trump, talvez acabem articulando uma estratégia em que a Índia passe a assumir uma posição estratégica de grande adquirente de parte desses insumos [terras raras brasileiras] e componentes, para que depois eles sejam reembalados e exportados para Washington”, pontua.
Terras raras e transição energética
Por fim, Nicodemos defende que o desenvolvimento da cadeia de terras raras e minerais críticos no Brasil deveria priorizar, ao menos inicialmente, setores nos quais o país já possui destaque internacional, como o de energia e a transição energética.
Segundo ele, enquanto outras nações concentram esforços no desenvolvimento de tecnologias cada vez mais dependentes de energia, o Brasil tem condições de oferecer soluções para ampliar a produção, modernizar sistemas e aumentar a eficiência energética.
Apesar dessa oportunidade, Ghaio Barbosa ressalta que o objetivo de longo prazo deve ser construir um projeto de industrialização capaz de reposicionar o Brasil na cadeia global de valor. A intenção, segundo ele, é deixar de atuar apenas como fornecedor de matérias-primas e passar a produzir componentes de maior valor agregado, transformação que dependerá de investimentos públicos robustos.
“Perdemos a corrida nuclear, a dos hidrocarbonetos e a dos biocombustíveis. Atendemos a muitas demandas domésticas, mas não conseguimos escalar essas iniciativas para nos inserir internacionalmente em grandes tecnologias, que são financiadas, em boa medida, com recursos públicos. A cada alternância brusca de poder, como ocorreu nas transições dos governos Dilma, Temer e Bolsonaro, perdemos escala e acabamos ultrapassados. Por isso, até mesmo a criação de uma estatal voltada à mineração e ao beneficiamento de minerais estratégicos gera incertezas no Brasil, diante da dificuldade de garantir projetos de longo prazo.”

Siga a Sputnik Brasil e tenha acesso a conteúdos exclusivos no nosso canal no Telegram.
Já que a Sputnik está bloqueada em alguns países, por aqui você consegue baixar o nosso aplicativo para celular (somente para Android).
Lucas Morais